domingo, 22 de novembro de 2009

Debates?

É comemorado na mídia de grande escala, seja em sites de grande veiculação ou em matérias televisivas os vinte anos das eleições diretas para presidente da república em 89. A maioria destes utiliza os debates ocorridos, e principalmente, os televisionados como grandes símbolos da abertura democrática pela qual passava o país naquele período. Seja exaltando a função do debate ou elevando- o a qualidade de representação-mor do discurso democrático, colorindo com “festividades” e relatos de quem participou do período, convocando a memória para se lembrar e regozijar do evento.

É sabido por quem quer que se interesse por política, a sujeira, as falácias, os discursos vazios e raivosos, as provocações e a tal famosa manipulação do debate, realizada por uma edição do Jornal Nacional, que sintetizou os conteúdos do embate realizado pelos dois principais candidatos. E como muitos dizem, e nossos olhos parecem querer concordar, houve uma grotesca manipulação, pesquisas encomendadas por institutos ligados a partidos, entonação favorável ao candidato Collor que hoje mesmo admite, “Roberto Marinho fez de tudo para que outros não se elegessem”.

Diante de tal período e munido dessas informações, cabe nos discutir para que serve hoje em dia, ou melhor, no nosso meio, a universidade, o debate entre chapas que disputam as eleições para o DCE. Com qual intuito se estrutura os discursos das chapas que disputam, e o que se pretende alcançar durante as discussões, e o modo com o qual escolhemos expor e ambientar o processo de embate?

É notável(Estou aqui há apenas dois anos, mas creio que, quem acompanha a mais tempo, terá até mesmo mais experiência para corroborar com essa afirmação) que os debates passados deixaram a impressão, em quem participou e de quem assistiu, de um show semelhante aos acontecimentos tão “democráticos” das eleições de 89. Acusações, manipulações e mentiras, discursos em tons nauseadamente sarcásticos ou empelidos de palavras raivosas e alterações extremadas de tom e de comportamento. Onde isso nos leva? O que isso nos mostra?

Ao discutir as finalidades de determinadas emoções e em busca de um método adequado para interpretá-las, Sartre, na obra “Esboço para uma teoria das emoções”, discute em diversas partes do texto, seja acrescentando ou ao comentar alguma obra anterior no campo da Psicologia, a finalidade de emoções, como a “cólera” ou de qualquer manifestação intensa de raiva, ódio, descontentamento. Boa parte delas se apresentariam como uma forma de não agir conforme o esperado. Diante dos mais variados bloqueios emocionais aos quais passam o individuo, diante de tal situação, acaba por ser mais confortável a ele, agir de forma extremada, dormir ante um compromisso importante, gritar quando sinto que estou “perdendo” uma discussão, justamente porque não tem outra coisa a dizer. Nas palavras de Sartre:

“Do mesmo modo, é fácil compreender um acesso de cólera que se apodera de mim, quando não sei mais o que dizer a um sarrista. A cólera, aqui, não tem exatamente o mesmo papel que no exemplo de Dembo*: não pude ser espirituoso, por isso me faço temível e intimidador. Quero causar medo. Ao mesmo tempo, uso de meios derivados (ersätze) para vencer meu adversário: injúrias, ameaças que “valem pelo” dito espirituoso que eu não soube encontrar, e me torno, pela transformação brusca que me imponho, menos exigente quanto à escolha dos meios.

Teriam se tornado no final das contas, os representantes envolvidos nos debates “Menos exigentes quanto à escolha dos meios”? Ou, as coisas se justapõem e temos pessoas vazias de discursos com os métodos, os mais alardeados? De qualquer maneira, cabe a nós, os estudantes, lutar para uma qualificação das idéias. Exigir que no debate, sejam discutidas, avaliadas, postas em xeque, as propostas e as políticas adotadas por cada chapa, fazer o debate cumprir sua real função, elevar o nosso discurso aos entraves de nossa própria ação e capacidade de analisar e agir na realidade. Esperamos que o estudante possa se reconhecer em nossas propostas e em nossos argumentos, colaborar com eles e que não titubem entre o sarrismo exarcebado e o discurso raivoso que não morde, e nem mobiliza ninguém.

Compareçam ao debate no R.U hoje à noite!

Nenhum comentário:

Postar um comentário